Convido todos vocês para, juntos, fazermos uma retrospectiva do quanto as usinas de fabricação de açúcar e álcool evoluíram em informatização, mecanização e tecnologia.

Conheço este setor na prática, nasci respirando fumaça das chaminés e com o cheiro insuportável do restilo da usina Tabajara, localizada no município de Limeira – SP, pois meus pais moravam em uma chácara retirada a 500 metros da usina.

Portanto, passei toda a minha infância observando o funcionamento da usina, com as informações dos meus irmãos que trabalhavam na empresa.

Quando completei 14 anos de idade, fui contratado para cortar cana, meu primeiro emprego com registro na carteira. Me lembro que, na época, existia uma cota limitada de toneladas de cana que podia ser moída durante a safra, e muitas vezes sobrava cana de um ano para o outro.

Há muito tempo esta lei foi extinta. Na época, existiam muitas pequenas usinas, com quantidade de produção menor. Com o término das cotas, as usinas com capital maior compraram as menores e foram passando a moer a produção de cana em uma só usina.

Na época, quase que a totalidade dos trabalhadores morava nas colônias de casas que pertenciam às usinas. Então, cada usina que fechava era uma calamidade: o trabalhador não tinha onde morar e não tinha outra profissão.

Pagava-se por feixes de cana, que precisavam ser cortados e amarrados. Cada feixe de cana nova, no primeiro corte, tinha que conter cerca de 15 varas; já a cana soqueira deveria conter, em média, 18 varas por feixe. Para obter um salário, o trabalhador precisava cortar aproximadamente 300 feixes por dia.

A evolução trouxe as carregadeiras de cana, então o trabalhador não precisava mais amarrar os feixes. O pagamento passou a ser por metro de cana cortada.

Dessa forma, o trabalhador começou a cortar o triplo da quantidade de cana. Passou também a ganhar mais? Não! O resultado ficou todo para a usina.

Importante ressaltar que a usina não ganhou só no corte da cana, mas no carregamento também. Quando a contagem era por feixes, tinha que pagar 4 ajudantes para carregar 15 toneladas. Em média, demorava-se duas horas. Com a carregadeira, não era preciso mais de nenhum ajudante, carregava-se 15 toneladas em 20 minutos.

Além de causar desemprego, os transportadores de cana não ganharam nada a mais pelo frete.

Mais recentemente vieram as cortadeiras de cana, que com oito horas de trabalho substituíram cerca de 100 trabalhadores. Já existem algumas máquinas que não precisam nem de operadores.

Para onde foram os resultados destas evoluções? Só para as usinas!

Por último, a evolução da tecnologia com os veículos flex. Hoje, são as usinas que definem a quantidade de açúcar ou de álcool a ser produzida. Ao priorizarem a produção de açúcar, não deixam faltar álcool nas bombas, mas elevam o preço para que não compense ao consumidor abastecer com álcool.

Importante dizer que não somos contra todas essas evoluções, mas não podemos concordar com a falta de reconhecimento para com os trabalhadores que produzem toda a riqueza e não têm o reconhecimento do valor de sua mão de obra.

Companheiros e companheiras, fizemos este retrospecto do setor sucroalcooleiro, mas se fizermos de qualquer outro setor, as injustiças praticadas pelos detentores do capital não são muito diferentes.

Para mudar esta política perversa, precisamos organizar e unificar as lutas. Vejo com muito entusiasmo esta unidade na campanha dos trabalhadores da categoria da alimentação, químicos, transportes e rurais, do setor sucroalcooleiro no estado de São Paulo.

Vamos juntos exigir a cota-parte dos trabalhadores pelo aumento da produtividade devido à evolução tecnológica – da implantação da informatização, da mecanização e o retorno econômico. Não nos esqueçamos da evolução das leis que beneficiaram os usineiros, e as vantagens obtidas por meio de sua força política.

Conte sempre com a CNTA nas lutas por melhores condições de trabalho, salário e vida dos trabalhadores.

Artur Bueno de Camargo – PRESIDENTE DA CNTA

(CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS TRABALHADORES NAS INDÚSTRIAS DA ALIMENTAÇÃO E AFINS)