Estou há mais de 40 anos no movimento sindical, defendendo os direitos dos trabalhadores e lutando para que a classe conquiste melhores condições de salário, trabalho e vida digna.

Eu já representei o Sindicato, a Federação e atualmente represento a CNTA – Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Afins, por isso sempre mantive contato com representantes de empresas grandes, médias e pequenas da categoria e também de outros segmentos.

Sempre procurei manter o diálogo de respeito, mesmo quando não concordava com as posições defendidas pelos empresários; até mesmo na coordenação de greves de trabalhadores, mantive sempre uma postura respeitosa.

Defender os interesses das empresas é o dever dos empresários e das entidades que os representam, mas esta defesa não pode ocorrer de maneira intransigente, sem o mínimo de coerência, como temos acompanhado por parte dos representantes da FIESP e da CNI.

Por que classifico esta defesa como incoerente?

As duas entidades, FIESP e CNI, nunca se prontificaram a discutir o tema de redução de jornada de trabalho. Agora, quando o país todo está voltado para a redução da jornada de trabalho com o fim da escala 6×1, dizem que aprovar a pauta seria “uma decisão de afogadilho”. Não levam em consideração que faz 38 anos que as leis não avançam neste quesito.

Surgem agora dizendo que a redução da jornada de trabalho vai provocar aumento no preço dos alimentos. É importante lembrar, porém, que quando o governo tentou retirar a isenção de tributos de 17 setores, ambas as entidades, FIESP e CNI, foram terminantemente contra, porém, não cobraram nenhuma contrapartida das empresas beneficiadas.

Concordamos e reconhecemos que o trabalho é a solução do país, mas é preciso proporcionar condições dignas de vida para quem trabalha. A redução da jornada, acompanhada de duas folgas semanais, significa reconhecer o valor de quem produz a riqueza do país.

O tema do “imposto das blusinhas”

É interessante saber que quando o governo encaminhou ao Congresso a cobrança de impostos sobre a importação de até 50 dólares, que era isenta, foi atendendo a pedidos das empresas e governadores, tanto é que o Congresso aprovou a pauta por unanimidade.


O governo, desde então, vem sofrendo pressão para retirar a chamada “taxa das blusinhas”. Não vimos nenhum governador, nenhuma empresa e, especialmente, a FIESP e a CNI, defendendo a taxação.

Agora, quando o governo resolve tirar a taxa e trabalha para o congresso aprovar, os representantes vêm a público dizer que a isenção trará prejuízo na arrecadação de impostos para os Estados e concorrência desleais para as Indústrias.

Na minha opinião, falta coerência por parte das representações empresariais. O mundo do trabalho mudou. Hoje, defender as empresas não pode ser sinônimo de trabalhar contra as necessidades de uma vida digna aos trabalhadores e seus familiares.
O caminho é dialogar com as representações dos trabalhadores, com o objetivo de resolver às necessidades da classe trabalhadora, que é quem constrói a riqueza do país.

Do contrário, a conta virá por outras vias. Então, não adiantará dizer que “não é o momento”. A verdade é que, quando o caminho do diálogo não atende às demandas do capital e do trabalho, caberá a um terceiro decidi-las.

Artur Bueno de Camargo – Presidente