No final do ano de 2025, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, postou um vídeo no Instagram (assista ao vídeo clicando aqui) demonstrando sua indignação com as políticas que vêm sendo implantadas e também com as que se pretende implantar no Brasil.

Na condição de representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação (CNTA), sinto-me no dever de me posicionar diante desse pronunciamento, que se distancia totalmente de uma defesa dos interesses de classe.

Sempre respeitei e continuarei respeitando posições contrárias às políticas da categoria profissional que defendemos, em benefício das trabalhadoras e dos trabalhadores que representamos em nosso país.

Entre os princípios de proteção das trabalhadoras e dos trabalhadores que defendemos estão o fortalecimento das indústrias, com a implementação de políticas de geração de empregos de qualidade, valorização da mão de obra e a manutenção de mesas permanentes de negociação. Este é o caminho: capital e trabalho caminhando juntos.

Quando o presidente da CNI questiona: “Quantos países passaram na nossa frente?”, posso responder que, nos dois últimos governos, passaram o Brasil, pelo menos, cinco países. Porém, com o atual governo, recuperamos e voltamos a ser a oitava economia mundial.

Ele afirma que o país “está patinando”. De fato, estava mesmo patinando nos governos anteriores, Temer e Bolsonaro, até mesmo com regressos visíveis. No atual governo, voltamos a crescer. Concordamos que precisamos unir forças, mas para discutir, de verdade, políticas de desenvolvimento e valorização dos trabalhadores.

Ao questionar: “Quem vai pagar a conta?”, respondo que quem sempre pagou foi a classe trabalhadora. Agora queremos que os detentores do capital e os especuladores contribuam um pouco com essa conta…

Quanto aos absurdos comentados pelo presidente da CNI, no vídeo quando se refere à ações do governo, precisamos ser mais claros. Será que ele se refere à isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais por mês? Ao reajuste do salário mínimo acima da inflação? Ao Bolsa Família? Ao Pé-de-Meia?

Que bom que a CNI esteja preocupada com o SUS e a Previdência. Porém, não posso deixar de questionar algumas coisas. Poderíamos começar pela proposta apresentada pelo governo para que 17 setores beneficiados das indústrias voltem a pagar o mesmo percentual para a previdência que os demais setores. Vale lembrar que a CNI foi contra.

Quando o presidente da CNI diz que é “a favor da jornada 5×2”, mas “o país não suporta”, precisamos deixar claro de que essa narrativa não se sustenta, da mesma forma que não se sustentou em 1988, quando foi reduzida a jornada de trabalho semanal de 48 para 44 horas.

Precisamos ter consciência de que a redução da jornada de trabalho, sem redução de salário, não se trata de um benefício somente para o trabalhador. É uma dívida que o capitalismo tem para com a classe trabalhadora, acumulada desde 1988.

Precisamos trabalhar, também, com a realidade de que somente a jornada de 40 horas semanais, com a implantação do 5×2, não será suficiente para incentivar os trabalhadores a voltarem a ter motivação de produzir, trabalhar e se empregar nas empresas.

Portanto, a redução da jornada de trabalho e juntamente com a valorização da mão de obra se tornaram uma necessidade para o desenvolvimento do país, especialmente do setor produtivo. Não adianta arrumar desculpas ou culpar a falta de mão de obra.  Valorize o trabalhador e não faltarão profissionais!

Quando o presidente da CNI fala em “dar um basta no populismo”, será que ele está interpretando que as políticas do atual governo no combate à fome, igualdade de oportunidades, políticas sociais de inclusão, inclusão do pobre no orçamento e o rico no imposto de renda são populismo?

O que causa estranheza é que, nos governos anteriores, quando estávamos com alta taxa de desemprego, mais de 30 milhões no mapa da fome, pessoas correndo atrás de caminhões de lixo para conseguir pedaços de ossos de animais para se alimentar, a tentativa de enfraquecimento das representações da classe trabalhadora, com retirada de direitos dos trabalhadores, a CNI sequer se manifestou. Nem mesmo em solidariedade a todos esses absurdos cometidos pelos governos Temer/Bolsonaro.

Senhor presidente da CNI, vamos debater política de classe, com o objetivo de juntos, construirmos propostas capazes de retomar o crescimento das indústrias de forma sustentável, com valorização dos trabalhadores, para que voltem a sentir-se estimulados a retornarem para as indústrias.

Assim, os representantes das indústrias não irão mais reclamar da falta de mão de obra, porque uma empresa sem trabalhadores não tem produção, nem lucro, nem competitividade. Perdem todos, inclusive o país, que fica com o desenvolvimento prejudicado.

Pense nisso.

Artur Bueno de Camargo – Presidente