
Artur Bueno Júnior – VICE-PRESIDENTE DA CNTA, PRESIDENTE DO STIAL E DA USTL
Foram anos de mobilização contínua, debates intensos e resistência nas ruas para derrubar um modelo de escala de trabalho que há tempos se mostrava desgastante, consumindo a saúde física e mental dos trabalhadores e privando-os do convívio familiar.
Os benefícios dessa mudança são imensuráveis e vão além do descanso: ao garantir mais qualidade de vida, o novo modelo combate diretamente o esgotamento profissional e os acidentes de trabalho, ao mesmo tempo em que estimula a economia por meio do consumo nos dias de lazer e da abertura de novas vagas para suprir as escalas.
Um avanço dessa magnitude não ocorre por acaso; ele só foi possível sob a liderança de um governo cujo presidente surgiu do movimento sindical. Por conhecer na pele a realidade do chão de fábrica, as longas jornadas e as reais dificuldades de quem vive do próprio suor, o Executivo teve a sensibilidade política necessária para abraçar a causa e transformá-la em realidade institucional.
CONTRA-ATAQUE CONSERVADOR
Contudo, a história dos direitos sociais no Brasil ensina que nenhuma conquista está permanentemente blindada. Em uma reação imediata, a bancada de oposição, articulada pela direita e extrema-direita, já desenha um forte contra-ataque com a PEC 12/2026.
Proposta pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), a matéria busca alterar a Constituição Federal para instituir o chamado trabalho flexível. Sob o pretexto de modernização, a medida estabelece que o trabalhador passe a receber estritamente pelas horas trabalhadas.
Embora o texto mencione o pagamento de décimo terceiro salário, férias e FGTS, todos esses direitos seriam calculados de forma proporcional às horas computadas, abrindo uma brecha perigosa para a precarização profunda, instabilidade financeira e jornadas intermitentes que podem deixar o trabalhador sem uma renda mínima digna ao final do mês.
POLÍTICA
O cenário ganha contornos ainda mais críticos quando se analisa o tabuleiro político e eleitoral atual. O senador Rogério Marinho atua como coordenador de campanha do candidato à presidência Flávio Bolsonaro, que já enviou acenos claros ao setor empresarial e financeiro. A sinalização é explícita: caso o grupo saia vitorioso nas urnas e consolide uma bancada majoritária no Congresso Nacional, a PEC 12/2026 será colocada em votação prioritária com o objetivo de desidratar os avanços recém-conquistados.
Com o controle do parlamento, a oposição projeta ter a maioria necessária para aprovar o texto sem grandes entraves.
Diante dessa ameaça real de retrocesso, a reeleição do presidente Lula assume um papel de central importância estratégica. A permanência de um projeto progressista no Poder Executivo é fundamental para garantir o equilíbrio entre os poderes e servir de barreira política e institucional contra a retirada de direitos. Mais do que evitar perdas econômicas e sociais, o voto na continuidade representa a segurança jurídica necessária de que o país não voltará ao passado de precarização, assegurando que o foco do Estado permaneça voltado para o avanço das pautas sociais e a ampliação da dignidade de quem trabalha.
Embora a extinção da escala 6×1 seja um passo gigantesco, a proteção desse patrimônio social exigirá a consciência nas urnas, vigilância redobrada e mobilização permanente.