“É como se, em relação à violência letal, negros e não negros vivessem em países completamente distintos”. É o que diz o texto do Atlas da Violência 2018, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2016, quando o Brasil registrou 62.517 assassinatos, a taxa de homicídios de negros (pretos e pardos) foi duas vezes e meia superior à de não negros (brancos, amarelos e indígenas) — 40,2 a cada 100 mil habitantes contra 16 a cada 100 mil habitantes. O relatório analisou os dados mais recentes disponíveis, de 2016, fornecidos pelo Ministério da Saúde.

Em 10 anos, entre 2006 e 2016, a taxa de assassinatos de negros cresceu 23,1%. No mesmo período, a de brancos, amarelos e indígenas teve uma redução de 6,8%. Entre as mulheres negras, o número de homicídios foi 71% superior ao de não negras. Os maiores índices de homicídios de pretos e pardos ocorreram nos estados de Sergipe (79%) e do Rio Grande do Norte (70,5%). Já as menores taxas foram registradas em São Paulo (13,5%), Paraná (19%) e Santa Catarina (22,4%).

Jovens

Segundo o relatório, 33.590 jovens foram assassinados em 2016, sendo 94,6% do sexo masculino. Os homicídios respondem por 56,5% das causas de óbito de homens entre 15 a 19 anos — aumento de 7,4% em relação ao ano anterior. Se forem analisados com os dados mais recentes do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência, ano-base 2015, o risco de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é 2,7 vezes maior que o de um branco.

Segundo Cristina Neme, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é possível perceber que os estados que investiram em políticas públicas conseguiram diminuir os índices de assassinatos da juventude. No entanto, nos que não deram continuidade ou não implementaram nenhuma estratégia de combate a situação se agravou.
 

Para a pesquisadora, os números só confirmam e agravam a maior vulnerabilidade na qual a população negra no país vive. O dia a dia reflete a “sobreposição de desvantagens” às quais está sujeita, em diferentes esferas do cotidiano. O homicídio, a mais grave delas, é o sinal mais forte da desigualdade e do racismo, que perpassa instituições e fere direitos, sobretudo da juventude preta e parda, do sexo masculino. “Quando mais de 70% das mortes são de jovens, faz você pensar que país a gente quer. Os números são recorrentes”, observa Cristina.

Renata Neder, coordenadora de Pesquisa, Políticas e Advocacy da Anistia Internacional, explica que o alto índice de homicídios de jovens não tem um impacto apenas para quem é morto. Famílias são destruídas com o trauma que fica em mães, irmãs, filhas, filhos e amigos. “A violência armada tem um impacto muito grande sobre a juventude. Ao conversar com jovens de periferia, é possível perceber que todos conhecem alguém próximo que morreu assassinado: um amigo de infância, um vizinho, um primo, um irmão, um parente”, complementou.

“O impacto da violência letal é muito além dessas 62 mil mortes por ano. E a sociedade também perde com essas dezenas de milhares de jovens que são assassinados todos os anos. Eles poderiam ser médicos, cantores, engenheiros, professores e contribuir enormemente para a sociedade brasileira como um todo. Mas eles estão sendo exterminados”, acrescentou.

Pela primeira vez na história, o número de homicídios equivale a uma taxa de 30 mortes para cada 100 mil habitantes, que corresponde a 30 vezes a da Europa. Apenas nos últimos 10 anos, 553 mil pessoas perderam a vida devido à violência intencional no Brasil.

Entre as unidades federativas com maior índice de mortes de jovens estão Acre, Amapá, seguido por Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte e Roraima.

Fonte: Correio Braziliense

 

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