Artur Bueno Júnior

VICE-PRESIDENTE DA CNTA, PRESIDENTE DO STIAL (SINDICATO DOS TRABALHADORES NAS INDÚSTRIAS DA ALIMENTAÇÃO DE LIMEIRA E REGIÃO) E DA USTL (UNIÃO SINDICAL DOS TRABALHADORES DE LIMEIRA)

Passados 131 anos da abolição da escravidão negra, o saldo de avanços da sociedade brasileira não permite grande comemoração nos tempos atuais. Nosso país ainda é injusto com os negros, e está longe de ter pago a dívida histórica, contraída durante os 388 anos de trabalho escravo.

No Brasil de 56,1% de cidadãos negros, a renda média de um homem negro, por hora, é de R$ 11 contra R$ 19 de um homem não negro. São dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), que aponta a mulher negra (renda de R$ 10 por hora) na parte mais inferior deste quadro, contra rendimento de R$ 17 por hora da mulher branca.

Engana-se quem pensa que a região Sudeste está melhor. O rendimento médio de um cidadão paulista negro, por hora, é de apenas R$ 12,12, contra R$ 21,84 do paulista branco – praticamente a mesma proporção da média nacional. No nosso Estado, apenas 21% da população ocupada com ensino superior é composta de negros– no caso da população ocupada em geral, o índice vai a 40%.

A escravidão terminou em 1888 no Brasil, sendo o país o último do Ocidente a abolir a escravatura. Do Estado brasileiro, a população negra liberta recebeu apenas um tapinha nas costas e um desejo de “boa sorte”. Gente jogada no mercado de trabalho sem o menor preparo ou suporte, cujo óbvio destino seria compor os espaços menos privilegiados da sociedade. Pouco mais de um século depois, e diante de pouquíssimas políticas públicas compensatórias, alega-se uma surreal meritocracia. Que raça teria melhor sorte que a negra, nestas condições?

Em nome desta meritocracia, se atacam políticas como as de cotas raciais, instrumentos fundamentais para a recuperação da dívida histórica. Em 2019, o número de negros já supera o de brancos nas universidades públicas (IBGE), número que não satisfaz o desejo da equidade, apenas mostra o caminho correto de uma política pública dentro do contexto civilizatório. Comemorar conquistas como esta, faz lembrar ao Estado brasileiro do risco de retrocesso.

Mas temos um longo caminho pela frente. As redes sociais, que amplificam a comunicação interpessoal, são palco de repugnantes casos públicos de injúria racial, como os sofridos pelo ator Bruno Gagliasso e a apresentadora Maria Júlia Coutinho. A filha de Gagliasso é negra e foi alvo de comentários como “cabelo e nariz horríveis de preto”, sendo que a apresentadora da Rede Globo teve de ler nas redes que era uma “preta escrava, insuportável”. Ofensas racistas em estádios de futebol também não são casos raros, e isto para ficar no âmbito público.

Hoje, negros comemoram sua data em 20 de novembro, contra um “13 de maio” (Dia da Abolição da Escravatura) que foi obra de brancos assustados pela pressão internacional. A mudança sintetiza o sentimento de luta contra a desigualdade, e merece da sociedade todo o respeito. Parabéns ao povo negro, pela sua luta de séculos. Que neste dia 20 de novembro possamos celebrar Zumbi dos Palmares e seu legado. Que cada negro deste país possa ter a certeza: longe de esmolas ou populismos, as políticas de compensação fazem parte do pagamento, da nossa enorme dívida histórica.

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